Basicamente, a estrutura de cada carta é a seguinte: identificação do remetente (isto é, Jesus), elogio, crítica e exortação ao arrependimento. Ao fim de todas elas, há a seguinte expressão: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (2.7, 11, 17, 29).
Se pudermos elencar o motivo pelo qual cada igreja é elogiada e criticada, podemos resumir da seguinte forma:
Éfeso (2.1-7): elogiada por sua ortodoxia doutrinária (isto é, seu apego ao ensino correto do Evangelho), por sua intolerância com a imoralidade e por sua perseverança em meio ao sofrimento. Entretanto, ela é criticada porque não é operosa em amor: sua ortodoxia não transborda em obras de amor para a comunidade. Parece que no início era muito fervorosa ("primeiro amor"), mas, com o passar do tempo, deixou de sê-lo. Demonstra ter se tornado uma igreja muito autocentrada.
Esmirna (2.8-11): não recebeu qualquer crítica. É uma igreja bastante elogiada pelo fato de viver em um ambiente onde recebia muita oposição local judaica — provavelmente pressão para que retornasse às práticas da Torá. Não se deve estender aqui a crítica à Sinagoga de Esmirna a todo e qualquer judeu, mas deve-se compreender como um problema local em Esmirna. É uma igreja que materialmente parece frágil e que está passando por aflições e forte oposição. O fato de não ter recebido críticas é a razão pela qual a exortação a ela não é focada no arrependimento, mas em que permaneça fiel.
Pérgamo (2.12-17): esta igreja também parece estar cercada de oposição, mas de natureza diferente daquela recebida por Esmirna. A menção ao "trono de Satanás" aponta para Pérgamo como a capital e sede administrativa do Império Romano na Ásia Menor. Como o Apocalipse apresenta o culto ao imperador como o principal opositor da igreja, é natural associar o "trono" — o centro de onde se governa — à sede do poder imperial na região. A oposição foi tão intensa que a igreja teve um de seus membros vitimado pelo martírio: Antipas. Aparecem aqui, como em Éfeso, os nicolaítas — cuja identidade é discutida, mas que pelo contexto dão a impressão de estarem ligados a religiões pagãs, e não a algum tipo de relação com o judaísmo. Ao contrário de Éfeso, Pérgamo deu ouvidos aos nicolaítas, os quais incentivaram alguns membros da igreja a participarem de práticas relacionadas aos cultos pagãos daquela cidade. Ou seja, temos aqui uma igreja operante, que não se envergonha do nome de Jesus e que já passou pelo martírio, mas que parece ter uma postura tolerante com falsas doutrinas e práticas do paganismo.
Tiatira (2.18-29): de longe, a igreja mais complicada do capítulo 2 do Apocalipse. Seu elogio restringe-se a apenas um versículo, destacando seu amor, sua fé, seu serviço e sua perseverança. Trata-se de uma igreja em situação muito perigosa, parecendo ser o oposto de Éfeso: enquanto esta é uma igreja bastante apegada à sã doutrina e à ortodoxia, Tiatira tolera os falsos ensinos de Jezabel, uma mulher que se diz profetisa, mas que faz os servos de Deus se desviarem do ensino correto (2.20). Nomeá-la “Jezabel” remete à personagem do Antigo Testamento, esposa do rei Acabe, adoradora de Baal, que levou a nação de Israel a pecar gravemente. Essa identificação na igreja de Tiatira não deve nos levar a imaginar que a profetisa que atuava na igreja tinha esse nome. João parece querer criar um paralelo e levar aqueles cristãos a entenderem, por essa comparação, o nível de pecado a que essa profetisa estava levando a igreja. Naquele contexto — em que é mencionado que ela estava ensinando a igreja a cometer imoralidade sexual e a comer alimentos oferecidos a ídolos —, ela parece direcionar a igreja para práticas relacionadas aos cultos de mistério e ao ocultismo daquela cidade. Em 2.24, somos informados de que ela e seus seguidores pretendiam descobrir ou entender "verdades mais profundas", as quais, na realidade, vêm de Satanás. Ora, mesmo nesta igreja complicada, Deus mantém pessoas que "não seguiram este falso ensino" (2.24). A estes Cristo apela: "Apeguem-se firmemente ao que já têm até que eu venha" (2.25). Cristo faz um apelo para que os que seguem os ensinos e as práticas dessa profetisa se arrependam e voltem à sã doutrina (2.22), mas alerta que aqueles que permanecerem apegados a esses ensinos e práticas serão mortos: "Matarei seus filhos, então todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda a mente e o coração" (2.23).
Nessas quatro igrejas podemos observar os apelos que Jesus nos faz hoje: devemos zelar para entender a doutrina correta conforme ensinada na Escritura; devemos ser operosos, procurando apresentar e desenvolver boas obras que transbordem para fora de nossas igrejas locais; não podemos tolerar a imoralidade sexual nem a adoração a qualquer outra coisa que não seja o Deus verdadeiro, tampouco seguir ensinos de profetas ou profetisas que prometem revelar "verdades profundas" nunca antes apresentadas ou provenientes de fora da Escritura.
Imagem gerada por IA.


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