Já em suas primeiras palavras, o livro do Apocalipse rebate a ideia popular, mas equivocada, de que seu conteúdo seja simplesmente obscuro ou indecifrável. “Apocalipse” é revelação. O livro se propõe a ser justamente o oposto de um enigma insolúvel: é uma exposição de realidades e uma revelação de acontecimentos que “ocorrerão em breve” (Ap 1.1).
O termo grego traduzido como “em breve” admite mais de uma nuance. Pode indicar que os acontecimentos ocorrerão em pouco tempo ou que, quando começarem, se desenrolarão rapidamente e sem demora. Em algumas interpretações, a expressão também pode sugerir a ideia de uma manifestação súbita. O mesmo termo aparece em Apocalipse 22.6.
Portanto, apesar do conteúdo simbólico do livro, não se deve imaginar que ele tenha sido escrito para obscurecer a verdade. Pelo contrário, ele comunica uma realidade premente e tem o propósito de alertar seus leitores. Como todo livro antigo, escrito em uma língua diferente e dirigido a comunidades separadas de nós por grande distância histórica e cultural, o Apocalipse exige atenção ao seu contexto. Sua aparente obscuridade deve-se não apenas ao nosso afastamento no tempo, no idioma e na geografia, mas também ao uso de símbolos, imagens e convenções próprias da literatura apocalíptica. João escreve para revelar e esclarecer.
E qual é a revelação principal do livro? Jesus Cristo. O assunto principal do Apocalipse não é uma cronologia autônoma do futuro, mas Jesus Cristo, cuja identidade, autoridade e vitória são reveladas por meio dos acontecimentos descritos. Em outras palavras, o Apocalipse é a revelação de Jesus Cristo em sua glória e poder. Logo no início, encontramos a afirmação: “Revelação de Jesus Cristo” (Ap 1.1).
Em tempos de crise e incerteza, o livro mostra que Jesus está no controle. Dirigido a sete igrejas que enfrentavam oposição, sofrimento e incerteza, o Apocalipse apresenta Jesus a João como a Testemunha fiel e verdadeira, aquele que venceu a morte e é soberano sobre os reis da terra, quaisquer que sejam os governantes humanos em exercício (Ap 1.5).
O primogênito dos mortos
“Primogênito dos mortos” (Ap 1.5), Jesus é o primeiro a ressuscitar para a vida glorificada, incorruptível e definitiva. Ele é o pioneiro e o fundamento da ressurreição futura dos que pertencem a ele (Cl 1.18; 1Co 15.20–23).
É essa primazia de Cristo na ressurreição que fundamenta a esperança de que também receberemos um corpo incorruptível e glorificado (1Co 15.42–49; Fp 3.20–21). Jesus não foi o primeiro a voltar à vida em qualquer sentido, pois a Bíblia relata outras restaurações à vida antes de sua ressurreição. Ele, porém, é o primeiro a ressuscitar para a vida definitiva e incorruptível.
O Apocalipse também oferece uma perspectiva sobre aqueles que morreram em Cristo. Em Apocalipse 6.9–11, na visão do quinto selo, os mártires aparecem sob o altar, clamando conscientemente pela justiça de Deus. É uma imagem marcante do cuidado pastoral de Deus com aqueles que morreram por causa de sua fidelidade.
A esperança do Apocalipse
A mensagem central do Apocalipse não é fornecer um calendário detalhado dos eventos finais, como se fosse possível montar uma cronologia irrefutável e uma sequência incontestável de acontecimentos futuros. Afinal, “daquele dia e hora ninguém sabe” (Mt 24.36). Antes, trata-se de um livro escrito para que a Testemunha Fiel e Verdadeira se revele em glória e poder como soberano sobre toda a terra, independentemente de quanto possa parecer que seus servos estejam abandonados ou desamparados.
O Apocalipse é uma mensagem de esperança em meio ao sofrimento, à perseguição e à angústia. Não é uma cronologia; é uma exortação pastoral.
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