quarta-feira, 21 de outubro de 2026
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
O que o Espírito diz às igrejas em Apocalipse 2: Éfeso, Esmirna, Pérgamo e Tiatira
Basicamente, a estrutura de cada carta é a seguinte: identificação do remetente (isto é, Jesus), elogio, crítica e exortação ao arrependimento. Ao fim de todas elas, há a seguinte expressão: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (2.7, 11, 17, 29).
Se pudermos elencar o motivo pelo qual cada igreja é elogiada e criticada, podemos resumir da seguinte forma:
Éfeso (2.1-7): elogiada por sua ortodoxia doutrinária (isto é, seu apego ao ensino correto do Evangelho), por sua intolerância com a imoralidade e por sua perseverança em meio ao sofrimento. Entretanto, ela é criticada porque não é operosa em amor: sua ortodoxia não transborda em obras de amor para a comunidade. Parece que no início era muito fervorosa ("primeiro amor"), mas, com o passar do tempo, deixou de sê-lo. Demonstra ter se tornado uma igreja muito autocentrada.
Esmirna (2.8-11): não recebeu qualquer crítica. É uma igreja bastante elogiada pelo fato de viver em um ambiente onde recebia muita oposição local judaica — provavelmente pressão para que retornasse às práticas da Torá. Não se deve estender aqui a crítica à Sinagoga de Esmirna a todo e qualquer judeu, mas deve-se compreender como um problema local em Esmirna. É uma igreja que materialmente parece frágil e que está passando por aflições e forte oposição. O fato de não ter recebido críticas é a razão pela qual a exortação a ela não é focada no arrependimento, mas em que permaneça fiel.
Pérgamo (2.12-17): esta igreja também parece estar cercada de oposição, mas de natureza diferente daquela recebida por Esmirna. A menção ao "trono de Satanás" aponta para Pérgamo como a capital e sede administrativa do Império Romano na Ásia Menor. Como o Apocalipse apresenta o culto ao imperador como o principal opositor da igreja, é natural associar o "trono" — o centro de onde se governa — à sede do poder imperial na região. A oposição foi tão intensa que a igreja teve um de seus membros vitimado pelo martírio: Antipas. Aparecem aqui, como em Éfeso, os nicolaítas — cuja identidade é discutida, mas que pelo contexto dão a impressão de estarem ligados a religiões pagãs, e não a algum tipo de relação com o judaísmo. Ao contrário de Éfeso, Pérgamo deu ouvidos aos nicolaítas, os quais incentivaram alguns membros da igreja a participarem de práticas relacionadas aos cultos pagãos daquela cidade. Ou seja, temos aqui uma igreja operante, que não se envergonha do nome de Jesus e que já passou pelo martírio, mas que parece ter uma postura tolerante com falsas doutrinas e práticas do paganismo.
Tiatira (2.18-29): de longe, a igreja mais complicada do capítulo 2 do Apocalipse. Seu elogio restringe-se a apenas um versículo, destacando seu amor, sua fé, seu serviço e sua perseverança. Trata-se de uma igreja em situação muito perigosa, parecendo ser o oposto de Éfeso: enquanto esta é uma igreja bastante apegada à sã doutrina e à ortodoxia, Tiatira tolera os falsos ensinos de Jezabel, uma mulher que se diz profetisa, mas que faz os servos de Deus se desviarem do ensino correto (2.20). Nomeá-la “Jezabel” remete à personagem do Antigo Testamento, esposa do rei Acabe, adoradora de Baal, que levou a nação de Israel a pecar gravemente. Essa identificação na igreja de Tiatira não deve nos levar a imaginar que a profetisa que atuava na igreja tinha esse nome. João parece querer criar um paralelo e levar aqueles cristãos a entenderem, por essa comparação, o nível de pecado a que essa profetisa estava levando a igreja. Naquele contexto — em que é mencionado que ela estava ensinando a igreja a cometer imoralidade sexual e a comer alimentos oferecidos a ídolos —, ela parece direcionar a igreja para práticas relacionadas aos cultos de mistério e ao ocultismo daquela cidade. Em 2.24, somos informados de que ela e seus seguidores pretendiam descobrir ou entender "verdades mais profundas", as quais, na realidade, vêm de Satanás. Ora, mesmo nesta igreja complicada, Deus mantém pessoas que "não seguiram este falso ensino" (2.24). A estes Cristo apela: "Apeguem-se firmemente ao que já têm até que eu venha" (2.25). Cristo faz um apelo para que os que seguem os ensinos e as práticas dessa profetisa se arrependam e voltem à sã doutrina (2.22), mas alerta que aqueles que permanecerem apegados a esses ensinos e práticas serão mortos: "Matarei seus filhos, então todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda a mente e o coração" (2.23).
Nessas quatro igrejas podemos observar os apelos que Jesus nos faz hoje: devemos zelar para entender a doutrina correta conforme ensinada na Escritura; devemos ser operosos, procurando apresentar e desenvolver boas obras que transbordem para fora de nossas igrejas locais; não podemos tolerar a imoralidade sexual nem a adoração a qualquer outra coisa que não seja o Deus verdadeiro, tampouco seguir ensinos de profetas ou profetisas que prometem revelar "verdades profundas" nunca antes apresentadas ou provenientes de fora da Escritura.
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terça-feira, 13 de outubro de 2026
Observações sobre a expressão "Dia do Senhor" em Apocalipse 1.10
Tradicionalmente, relaciona-se o “dia do Senhor” de Apocalipse 1.10 com o domingo porque a expressão grega κυριακῇ ἡμέρᾳ (kyriakē hēmera) passou a ser usada pelos cristãos antigos para designar o dia semanal de reunião, culto e celebração da ressurreição de Jesus. Essa interpretação é reforçada por textos cristãos dos séculos I e II, como a Didaquê e escritos de autores posteriores, nos quais expressões semelhantes aparecem ligadas à reunião comunitária e à ceia. Contudo, Apocalipse 1.10 não menciona explicitamente o domingo nem o primeiro dia da semana. Há apoio principalmente do uso histórico e da tradição cristã posterior, apesar de não ser uma declaração direta do próprio versículo.
Por outro lado, a identificação com o sábado (sétimo dia da semana) tampouco decorre naturalmente da linguagem neotestamentária. O Novo Testamento chama regularmente o sábado de Sábbatton, e não de kyriakē hēmera. Embora κυριακός não prove por si só o domingo, não há evidência neotestamentária ou patrística antiga igualmente clara que associe esse adjetivo ao sábado. Assim, a leitura sabática depende sobretudo de uma construção teológica baseada na continuidade do mandamento e não é exigida pelo próprio texto. Se João estivesse se referindo ao sábado, seria natural esperar que usasse a palavra normalmente empregada no Novo Testamento para designá-lo: “sábado” ou “dia de sábado”. Como ele não utiliza essa expressão em Apocalipse 1.10, a identificação do “dia do Senhor” com o sábado não é evidente pelo próprio vocabulário do texto.
Além disso, têm sido feitas tentativas de associar a expressão "Dia do Senhor" de Apocalipse 1.10 ao Dia Escatológico do Senhor, à volta de Jesus. Entretanto, também é importante perceber que a expressão usada em Apocalipse 1.10 não é, em grego, exatamente a mesma encontrada em textos que falam do futuro Dia do Senhor, como 2 Pedro 3.10. Em Apocalipse, João diz que estava “em espírito no dia do Senhor”; o texto não afirma que ele foi levado “ao Dia do Senhor”, como se tivesse sido transportado para o dia do juízo final. Essa interpretação é possível, mas não corresponde à forma mais direta de traduzir o versículo.
O que se conclui então? Associar o "Dia do Senhor" de Apocalipse 1.10 ao domingo recebe maior apoio em virtude do uso cristão posterior da expressão grega (embora também não seja demonstrada de modo absoluto pelo grego de Apocalipse 1.10). Isso, contudo, não significa necessariamente que o domingo seja apresentado como um dia de guarda nos moldes da observância judaica do sábado. Além disso, a evidência para associar a expressão de Apocalipse 1.10 ao sábado (sétimo dia da semana) ou ao dia Escatológico do Senhor é muito mais frágil do ponto de vista linguístico, escriturístico e histórico.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2026
O Cristo Glorificado está presente na igreja e livra do sofrimento (Apocalipse 1.9-20)
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Bem-aventurado quem lê e guarda: bem-aventurança em Apocalipse 1.3
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Apocalipse: revelação de Jesus Cristo e esperança para a Igreja
Já em suas primeiras palavras, o livro do Apocalipse rebate a ideia popular, mas equivocada, de que seu conteúdo seja simplesmente obscuro ou indecifrável. “Apocalipse” é revelação. O livro se propõe a ser justamente o oposto de um enigma insolúvel: é uma exposição de realidades e uma revelação de acontecimentos que “ocorrerão em breve” (Ap 1.1).
O termo grego traduzido como “em breve” admite mais de uma nuance. Pode indicar que os acontecimentos ocorrerão em pouco tempo ou que, quando começarem, se desenrolarão rapidamente e sem demora. Em algumas interpretações, a expressão também pode sugerir a ideia de uma manifestação súbita. O mesmo termo aparece em Apocalipse 22.6.
Portanto, apesar do conteúdo simbólico do livro, não se deve imaginar que ele tenha sido escrito para obscurecer a verdade. Pelo contrário, ele comunica uma realidade premente e tem o propósito de alertar seus leitores. Como todo livro antigo, escrito em uma língua diferente e dirigido a comunidades separadas de nós por grande distância histórica e cultural, o Apocalipse exige atenção ao seu contexto. Sua aparente obscuridade deve-se não apenas ao nosso afastamento no tempo, no idioma e na geografia, mas também ao uso de símbolos, imagens e convenções próprias da literatura apocalíptica. João escreve para revelar e esclarecer.
E qual é a revelação principal do livro? Jesus Cristo. O assunto principal do Apocalipse não é uma cronologia autônoma do futuro, mas Jesus Cristo, cuja identidade, autoridade e vitória são reveladas por meio dos acontecimentos descritos. Em outras palavras, o Apocalipse é a revelação de Jesus Cristo em sua glória e poder. Logo no início, encontramos a afirmação: “Revelação de Jesus Cristo” (Ap 1.1).
Em tempos de crise e incerteza, o livro mostra que Jesus está no controle. Dirigido a sete igrejas que enfrentavam oposição, sofrimento e incerteza, o Apocalipse apresenta Jesus a João como a Testemunha fiel e verdadeira, aquele que venceu a morte e é soberano sobre os reis da terra, quaisquer que sejam os governantes humanos em exercício (Ap 1.5).
O primogênito dos mortos
“Primogênito dos mortos” (Ap 1.5), Jesus é o primeiro a ressuscitar para a vida glorificada, incorruptível e definitiva. Ele é o pioneiro e o fundamento da ressurreição futura dos que pertencem a ele (Cl 1.18; 1Co 15.20–23).
É essa primazia de Cristo na ressurreição que fundamenta a esperança de que também receberemos um corpo incorruptível e glorificado (1Co 15.42–49; Fp 3.20–21). Jesus não foi o primeiro a voltar à vida em qualquer sentido, pois a Bíblia relata outras restaurações à vida antes de sua ressurreição. Ele, porém, é o primeiro a ressuscitar para a vida definitiva e incorruptível.
O Apocalipse também oferece uma perspectiva sobre aqueles que morreram em Cristo. Em Apocalipse 6.9–11, na visão do quinto selo, os mártires aparecem sob o altar, clamando conscientemente pela justiça de Deus. É uma imagem marcante do cuidado pastoral de Deus com aqueles que morreram por causa de sua fidelidade.
A esperança do Apocalipse
A mensagem central do Apocalipse não é fornecer um calendário detalhado dos eventos finais, como se fosse possível montar uma cronologia irrefutável e uma sequência incontestável de acontecimentos futuros. Afinal, “daquele dia e hora ninguém sabe” (Mt 24.36). Antes, trata-se de um livro escrito para que a Testemunha Fiel e Verdadeira se revele em glória e poder como soberano sobre toda a terra, independentemente de quanto possa parecer que seus servos estejam abandonados ou desamparados.
O Apocalipse é uma mensagem de esperança em meio ao sofrimento, à perseguição e à angústia. Não é uma cronologia; é uma exortação pastoral.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2025
"Perfeito" como Deus? A Verdadeira Mensagem por Trás de Mateus 5.48
Um desses casos, pra mim, é Mateus 5.48. Sempre me incomodou essa ideia de que devemos ser perfeitos como Deus é perfeito. Como assim? Sou um ser humano pecador, cheio de falhas, como diz um antigo vídeo do Mario Sérgio Cortella: o vice-treco do subtroço. Como posso "ser perfeito". Isso é impossível. Mas é uma ordem de Jesus, não é mesmo?
Mateus 5.48 ARA "Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste."
O problema é que em português a palavra "perfeição" traz embutida uma ideia de ausência de falhas e, no contexto da religião e espiritualidade, é impossível dissociar isso de uma ideia de impecabilidade.
Hoje, contudo, consegui um alento no processo de leitura do livro "Como se tornar um cristão inútil", do Rodrigo Bibo.
Em Filipenses 3.15, a palavra grega τέλειος (teleios), traduzida como "perfeito", é a mesma de Mateus 5.48.
Alguns comentaristas e gramáticos sugerem que teleios é melhor traduzida como maduro ou completo (informação retirada do livro "Como se tornar um cristão inútil", pág. 82). Essa interpretação alinha-se com o significado de teleios de ser plenamente desenvolvido, ter alcançado um objetivo ou estar em um estado de totalidade.
Considerando isso, uma tradução mais aprimorada para Mateus 5.48 seria:
"Portanto, sejam completos, assim como o Pai de vocês, que está nos céus, é completo."
Essa tradução enfatiza a busca pela plenitude e maturidade espiritual, um estado de inteireza e desenvolvimento total na relação com Deus, em vez de uma perfeição sem falhas. É um chamado ao crescimento contínuo e à busca pela semelhança com o caráter divino.
Além disso, uma análise da perícope Mateus 5.43-48 deixa claro que a ênfase de Jesus é na capacidade de amar os inimigos. Deus nos ama e temos, por natureza, inimizade contra Deus. Ser filho de Deus é não ter um amor incompleto e imaturo. Ser perfeito, digo, completo como o Pai é, é amar com inteireza de coração.
Cristo está nos dizendo que filhos do Pai que são maduros, que são completos, são aqueles que amam e demonstram amor a todas as pessoas independente de elas serem amigas ou inimigas, independente de elas terem alinhamentos conceituais conosco ou não, independente de elas terem comportamentos alinhados aos nossos ou não, independente de elas estarem de acordo com o estereótipo que desenhamos na nossa própria mente do que é uma boa pessoa ou um bom cidadão.
"Mas Deus nos prova seu grande amor ao enviar Cristo para morrer por nós quando ainda éramos pecadores." Romanos 5.8.
"Deus é amor" 1 João 4.8
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quinta-feira, 10 de outubro de 2024
A divindade de Jesus: nos Sinóticos e em João
O texto abaixo não pretende ser exaustivo, mas sintetizar aquela que foi minha resposta a ele e oferecer alguns insights.
Esse tipo de conceito recebe o nome de cristologia baixa (nos Sinóticos) versus cristologia alta (em João).
Entretanto, discordo dessa ideia de que os Sinóticos apresentam uma cristologia baixa, ou seja, a de que Jesus, para Mateus, Marcos e Lucas, não era Deus encarnado, mas um messias humano pouco acima de um profeta.
A divindade de Jesus é mais clara e evidente em João porque ele é mais tardio e foi disseminado num momento em que os outros três já haviam circulado amplamente entre as comunidades cristãs da época. Além disso, João viu a necessidade de oferecer algumas explicações aos dizeres e acontecimentos dos Sinóticos e, também por ser mais tardio, não repisou as mesmas coisas; antes, decidiu contar outros fatos e histórias que os outros três não tinham abordado. Ponho isso na conta da revelação progressiva.
Revelação progressiva
Nos Sinóticos, a revelação da divindade de Jesus é construída. Vai num crescente, especialmente em Marcos, que é o primeiro. Não é ambígua, sutil ou indireta. É argumentada, construída. Eles estão escrevendo a uma comunidade que está sendo ensinada. João foi escrito cerca de 25 anos depois dos Sinóticos. Essa ideia já estava consolidada entre os cristãos. Ele sentiu-se à vontade para ser mais explícito. Quem consolidou essa ideia? Quem espalhou isso na comunidade cristã antes da literatura joanina? Ora, por dedução, Paulo e os Sinóticos. Isso é revelação progressiva.
João está escrevendo a judeus e prosélitos, não necessariamente a cristãos. Portanto, ele está argumentando à comunidade judaica uma ideia que na comunidade cristã já estava consolidada: Jesus é o Messias, o Filho de Deus (Jo 20:30-31). Ele está tentando convencer judeus de algo que entre cristãos já era pregado e crido.
Divindade nos Sinóticos
Nos trechos abaixo, não há ambiguidade sobre a natureza divina do Nazareno.
Jesus se identificou como Adonai (Mt 22:41-45; Mc 12:35-37). Afirma ter autoridade para perdoar pecados (Mt 9:6), algo que só Deus poderia fazer. Mateus usa um trecho do Antigo Testamento para se referir a Jesus como "Deus conosco" (Mt 1:23). João vai "adiante do Senhor" (Lc 1:17). Isabel se refere a Maria como a "mãe do meu Senhor" (Lc 1:43). Os anjos, ao anunciarem o nascimento de Jesus aos pastores, se referem a Ele como "Cristo, o Senhor" (Lc 2:11).
A base sobre a qual se erguem os Sinóticos é a expressão "Filho de Deus". É assim que Jesus é apresentado (Mc 1:1), reconhecido (Mt 16:16) e por isso Ele é condenado pelo Sinédrio (Mc 14:61-64). Apesar de não ser um Sinótico, o fato de João expressar que esse termo traz embutido a ideia de "fazer-se igual a Deus" (Jo 5:17-18) mostra que naquela cultura, para aqueles judeus, Jesus estava se apresentando e sendo reconhecido como igual a Deus.
Jesus foi crucificado por Roma, mas a pedido do Sinédrio. A relutância de Pilatos é, em parte, evidência de que Roma não o via necessariamente como um revolucionário perigoso, não como via zelotes, por exemplo. Os casos no NT em que a liderança judaica se ofendeu com as alegações divinas de Jesus mostram que para o Sinédrio, pelo menos, Jesus era visto como alguém que alegava ser igual a Deus (Jo 5:18; Jo 8:58-59; Mc 2:2-12; Mt 12:8; Lc 5:34-35; Mc 14:61-64).
Além disso, os milagres de Cristo sobre a natureza (multiplicar pães - Jo 6:6-13; Mc 8:1-9 - a pesca milagrosa - Lc 5:4-11 - e em especial acalmar a tempestade - Mc 4:37-41, 6:51; Lc 8:22-25 - etc.) são claras teofanias, tentativas dos evangelistas de associar Jesus a mais que um profeta.
Desta forma, os Evangelhos Sinóticos oferecem uma construção gradual e argumentada da divindade de Jesus, de forma que a sua natureza divina não é menos presente do que no Evangelho de João, apenas revelada de maneira progressiva. João, por ser um evangelho mais tardio, pôde ser mais explícito em sua cristologia, enquanto os Sinóticos apresentam essa revelação da divindade de Jesus de forma construída, visando preparar suas comunidades para a plena compreensão da identidade de Jesus. A ideia de "cristologia alta" e "cristologia baixa" simplifica um processo teológico que, nos Sinóticos, é claro e intencional. Portanto, a divindade de Jesus está presente em todos os evangelhos, embora com abordagens diferentes conforme o contexto e o público-alvo de cada um.








