O Livro Selado e o Choro de João
A cena inicial apresenta um livro (lit.: rolo) escrito por dentro e por fora – uma característica que denota que só a parte de dentro não havia sido o suficiente para registrar o conteúdo extenso. O rolo está severamente lacrado com sete selos, repousando na mão direita daquele que está no trono (Ap 5.1). O texto mantém um silêncio estrito quanto ao conteúdo exato do rolo naquele momento, gerando um suspense dramático monumental.
Um anjo poderoso lança então o desafio em alta voz: "Quem é digno de romper os selos deste livro e abri-lo?" (Ap 5.2). A resposta traz uma paralisia total: não havia ninguém no céu, na terra ou debaixo da terra capaz de abrir o rolo e ler (Ap 5.3). Diante disso, o apóstolo João irrompe em choro convulsivo (Ap 5.4).
Muitos estudiosos entendem que aquele rolo é, muito provavelmente, um testamento. A tese não é consensual, mas é bastante comum. Há um traço cultural da época que remete a essa forma de registrar um testamento: um rolo selado com sete (ou seis) selos. Sendo um testamento, eis um documento cujos selos só poderiam ser rompidos pelo destinatário e apenas se o autor tivesse morrido. O destinatário, entretanto, não está na corte! Além disso, o texto apresenta como requisito o fato de o destinatário ter de ser digno. O desespero de João se justifica, portanto, porque se o livro permanecesse fechado, o desígnio divino para a história, incluindo julgamento, redenção e a consumação do reino, e a vitória definitiva sobre o mal, estariam aparentemente paralisados, deixando a história humana trancada em silêncio e obscurecida.
O Paralelo com Daniel 7: Por que Apenas o Deus-Homem é Digno?
Uma pista da razão pela qual nenhum ser criado – nem os anjos, nem os seres viventes, nem os anciãos – podia abrir o livro parece encontrar-se na visão de Daniel 7. Naquela profecia, o "Ancião de Dias" está assentado em seu trono, e "um como o Filho do Homem" aproxima-se dele para receber domínio, glória e um reino eterno. Apocalipse 5 apresenta um paralelo notável com Daniel 7.
Parece haver aqui uma alusão à lei do remidor (Go'el, Levítico 25.25-55; cf. Rute 3.12-14, 4.1-10). No Antigo Testamento, exigia-se que quem resgatasse a herança perdida fosse um parente de sangue. Para resgatar a humanidade e o destino da criação, o Libertador tinha de ser verdadeiramente homem. Nenhum anjo ou ser celestial possuía a humanidade necessária para representar o ser humano, e nenhum mero mortal estava isento do pecado.
É aqui que se manifesta a glória da encarnação: Jesus Cristo une perfeitamente as duas naturezas. Como Deus, Ele é sem pecado e possui autoridade absoluta; como homem, Ele é o representante legítimo da humanidade que venceu o pecado. Somente Aquele que é plenamente Deus e plenamente homem podia aproximar-se do Ancião de Dias e habilitar-se a revelar o conteúdo do rolo.
Ouviu sobre o Leão, viu o Cordeiro
Para descrever o Libertador, João emprega o padrão estilístico, recorrente no Apocalipse, de contrastar e complementar o que se ouve com o que se vê.
- Ouvido: João ouve um dos anciãos anunciar o "Leão da tribo de Judá, o herdeiro do trono de Davi" (Ap 5.5). Para os ouvintes da época, a imagem do leão evoca força militar, realeza e conquista implacável.
- Visto: Quando João se vira para contemplar essa força, ele vê um Cordeiro como que morto, de pé (Ap 5.6).
A vitória de Cristo não se dá pela imposição violenta dos impérios terrestres, mas através do sacrifício e da ressurreição. As marcas do sacrifício permanecem visíveis em sua aparência, eternizando a entrega que o tornou digno.
Se entendermos o Rolo como um testamento, fica a pergunta: quem o escreveu? Há uma aparente sugestão implícita no texto - aqui falo de uma percepção minha e não de algum comentário que consultei - de que Aquele que morreu e deixou o testamento é o mesmo Cordeiro que agora o recebe.
Fazendo essa extrapolação teológica poderíamos dizer que estamos diante de um documento redigido por um Cristo pré-encarnacional (Leão), ainda em sua natureza exclusivamente divina, que é recebido por um Cristo pós-encarnacional (Cordeiro). Ele é o autor e, também o destinatário.
Além disso, a anatomia simbólica deste Cordeiro reforça sua soberania:
- Os sete chifres: O número sete denota perfeição, e o chifre é um símbolo de força absoluta na literatura no Oriente Próximo (p. ex.: em 1 Sm 2.1 a NVT traduz o que literalmente é "exaltou o meu chifre" como "o Senhor me fortaleceu") . Temos um cordeiro com a força perfeita de um leão.
- Os sete olhos: Identificados como os sete espíritos de Deus (o Espírito Santo) enviados a toda a terra, simbolizando a onisciência e a vigilância perfeita do Cordeiro sobre a realidade terrena.
O Pai Criador no trono, o Filho do Homem Redentor como o Messias-Cordeiro, e o Espírito Santo operando através dos sete olhos e das sete tochas de fogo (cf. Ap 4.5) mostra a Trindade operando conjuntamente para redimir a humanidade.
A Redenção Cósmica e o Cântico dos Remidos
O Cordeiro aproxima-se e recebe o livro das mãos daquele que está no trono. Imediatamente, a reação do céu é de adoração arrebatadora. Os quatro seres vivos e os 24 anciãos prostram-se com harpas e taças de ouro cheias de incenso – que o próprio texto define como as orações do povo santo (Ap 5.8).
Entoando um novo cântico, eles proclamam que o Cordeiro é digno porque foi sacrificado e, com o seu sangue, resgatou para Deus pessoas de "toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9).
Aqui se forma a simetria perfeita entre os capítulos 4 e 5:
- Apocalipse 4: O Pai é louvado por ser o Criador de todas as coisas.
- Apocalipse 5: O Filho é louvado por ser o Redentor que comprou a humanidade com seu sangue.
O coro expande-se para milhões de anjos ao redor do trono, ecoando que o Cordeiro é digno de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor (Ap 5.11-12).
O Reino de Deus desafia a cultura de Opressão e Dominação
As implicações do capítulo 5 para a vida da Igreja são profundas e transformadoras. Primeiramente, ele confronta a mentalidade mundana do poder: Jesus não conquista o mundo militarmente, mas através do sacrifício. Enquanto os governantes deste século impõem seus reinos pela força e coação, Cristo governa pelo serviço, pela entrega e pelo amor sacrificial. Não há aqui condescendência nem falta de poder, mas uma escolha deliberada por servir com gentileza sem renunciar a firmeza, a escolha deliberada de governar pelo serviço e pela empatia e não pelo poder militar e força violenta.
Para uma igreja perseguida ou tentada a buscar o poder terreno pela espada, fica claro que a vitória do povo de Deus nunca virá por métodos opressores, mas por seguir fielmente o Cordeiro.
Em segundo lugar, o texto desfaz o choro de João ao mostrar que a história não está abandonada ao acaso. Existe um Deus-Homem, vitorioso e soberano, que desatou o livro do nosso destino. Se todo o cosmos se curva reverente diante de Cristo, com muito mais razão nós, seres mortais e remidos, devemos nos prostrar, proclamando que Ele é o único digno de toda a honra, glória e louvor para todo o sempre.








