11 de novembro de 2010

Você sabe ler?

O palhaço TiriricaGanhou a página de grandes jornais de circulação nacional, e outros conglomerados de comunicação no Brasil, a recente polêmica na qual se envolveu o palhaço Tiririca. A lei no Brasil prevê que analfabetos podem votar, contudo não podem concorrer a cargos eletivos. Algumas dúvidas então surgiram sobre essa capacidade do “palhaço mais famoso do Brasil”.

Não quero aqui discorrer sobre a capacidade ou não de Tiririca saber ler e escrever. Esse é um problema que ele vai ter que prestar contas à justiça. Quero levantar outra questão: você sabe ler?

Não é incomum encontrar pessoas que tem certa dificuldade com a leitura. Alguns, que possuem anos de estudo, se cansam em ler textos ainda que curtos, de duas a três páginas. Para estes, ler um livro é suplício, uma tarefa hercúlea.

Essa é a repercussão de uma cultura educacional muito mais voltada para as notas das provas que para o desenvolvimento de habilidades cognitivas mais amplas. Não há que se discutir a importância da leitura. Ler e compreender um texto de maneira adequada é importante para o desenvolvimento de qualquer ser humano, não importa se essa é a leitura de um conto ou de uma tese de doutorado.

Contudo, mesmo aqueles que receberam uma instrução mais elevada, têm dificuldade para ler. Queremos destacar três razões: hábito de leitura precário, vícios do mundo digital e ausência de método.

Desenvolva o hábito de leitura

O brasileiro lê muito pouco, em média 1,8 livros/ano. Sabemos que no Brasil há um empecilho terrível a nível editorial, que inclusive já destacamos aqui no Uma Questão de Perspectiva (veja aqui e aqui). Contudo, vale ressaltar que a dificuldade de acesso não justifica a inércia de leitura de algumas pessoas. Conheço pessoas com nível superior cujo hábito de leitura é bastante precário.

Reservamos tempo para tudo aquilo que julgamos importante. Ora, uma vez que lê-se pouco no Brasil, pressupõe-se que o brasileiro dá pouco valor à leitura. O hábito precisa ser desenvolvido, se deveria separar um espaço na agenda para que um bom livro pudesse ser degustado. Gastamos de duas a três horas por dia em frente à televisão, com conteúdo pouco (ou nada) aproveitável e não temos a coragem de gastar 1 hora por dia lendo um bom livro. E não diga que o problema é preço. Há excelentes obras no Brasil a preços bastante acessíveis (de R$ 5 a R$ 15).Kelly Redinger/Design Pics/Corbis

Se você gasta 2 horas por dia na frente de uma TV, em média, terá gasto ao final de um ano 730 horas. Ou seja, mais de 1 mês de sua vida naquele ano terá sido passado na frente de uma caixa preta. Se você viver 90 anos terá gasto mais de sete anos e meio assistindo TV. Note que há quem gaste mais de duas horas em média.

Reserve um tempo de sua agenda diária para ler um bom livro e degustar belas palavras daquele objeto de consumo popularizado por Gutemberg.

A internet está tirando o melhor da sua leitura

Outro problema que as pessoas enfrentam para uma leitura proveitosa é a presença muito intensa de “leituras digitais”. Lemos muito pela internet (blogs inclusive). Não estou dizendo que a internet é um problema, mas verdade seja dita: ela está nos tornando leitores medíocres e preguiçosos.

Ler um livro de 200 páginas parece uma tarefa gigantesca, que duraria dias, semanas, meses. Um de 700 então… nem se fale. Esse post já está ficando longo para aqueles habituados única e exclusivamente a ler pela internet.

Nosso conselho nesse caso é: após ler o Uma Questão de Perspectiva (Smiley piscando) pegue um bom livro para ler. Complementando o que falamos anteriormente, crie o hábito de livros por meios não-digitais. Não sei se acontece com você, mas ao ler algo impresso, que outrora li no computador, a obra ganha nuances diferentes para mim. E se for eu mesmo que o tiver escrito, acabo descobrindo formas de torná-lo mais inteligível e corrigir alguns erros.

Saiba ler com método

Para ler também é preciso método. Há aqueles que gostam de ler antes de dormir. Há ainda os que preferem uma poltrona, outros a cama. Conheço pessoas que apreciam sentar à mesa, outros que preferem um sofá. Alguns lêem em casa, outros preferem ir a uma biblioteca.Fotógrafo Peter Simard, 17 abril 2009 / Corbis

Podemos citar aqui três coisas importantes no que tange a método:

Escolha um local confortável: é importante que o ambiente lhe deixe à vontade, descansado, em uma posição em que não fique com dores nas costas ou no pescoço, por exemplo. Um local que seja arejado e silente, que lhe permita dedicar atenção à leitura.

Grife seu texto: li certa vez que o melhor observador é o lápis. Se você está fazendo uma leitura técnica, talvez sinta mais necessidade de sublinhar, riscar, rabiscar ou parafrasear uma obra cujo principal objetivo seu seja o lazer. É provável também que você sinta vontade de escrever um resumo, a fim de gravar melhor aquelas informações ou manter uma referência para algo que está escrevendo (veja nosso texto sobre como fazer um resumo).

Releia, se for melhor para entender: algumas vezes precisamos reler um parágrafo para voltar a entender o que se está lendo. Acontece comigo: chegar ao fim de uma cadeia de pensamentos e não saber exatamente do que o autor está falando. O que popularmente chamamos de “perder o fio da meada”. Um texto é composto de subtemas (argumentos, no caso de textos dissertativos) que embasam uma ideia central. Se você perder uma parte da peça, todo o espetáculo pode parecer em vão.

Quantos livros você já leu esse ano?

2 comentários:

  1. Bruno, não sei se você escreveu o texto impressionado pelo texto do blog do Rodolfo sobre o quanto a internet está tornando o ser humano burro, mas minha experiência pessoal nega tudo o que você e o Rodolfo disseram sobre leitura digital.

    Há anos mais de 90% dos livros que leio são digitais (só compro impressos os livros que não consigo achar nesse formato), e a internet facilitou horrores o acesso das pessoas ao conhecimento científico. É muito fácil achar artigos científicos hoje em dia, sem ter que pagar fortunas por revistas especializadas. Até a Bíblia eu praticamente só leio no computador desde que encontrei pra baixar.

    Verdade que a minha experiência pessoal pode não ser igual à de todo mundo, mas eu vejo que uma brecha na regra significa que ela não foi suficientemente bem formulada. Quebrando o senso comum de que "a excessão confirma a regra", sou da opinião de que a excessão aponta ao fato de que a regra tem falhas e pode precisar ser revista. Um exemplo é o caso Mecânica clássica X Mecânica quântica.

    Enfim, mesmo eu que estou acostumado a só ler "pela internet" acho todos os seus textos curtos, sucintos e bem escritos, e justamente (em parte) por conseguirem transmitir bem uma mensagem com objetividade.

    Por tudo isso acho importante ressaltar que nem todos que têm o hábito da leitura predominantemente digitalizado têm preguiça de ler, muito menos de pensar. Eu atribuo essa preguiça à qualidade do conteúdo que essas pessoas (talvez a maior parte da população) estão acostumadas a absorver de todo tipo de mídia, não só a escrita, e isso vem de antes da popularização da internet no Brasil, com a nossa programação televisiva (que descartei há anos) e o conteúdo de uma tonela de revistas que nada acrescentam a ninguém.

    Abraços!

    Jeferson.

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  2. Concordo com você, Jeferson. Há exceções à regra sim. Não é a leitura na internet que nos torna preguiçosos, contudo me parece que ela amplia a própria indisposição que algumas pessoas têm para aprofundar-se no entendimento de um texto. Obrigado pelo comentário.

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